1-
Você
lembra do seu primeiro dia de aula? Quais eram as expectativas? Como foi
recepcionado pela comunidade escolar?
Inicialmente,
comecei me alfabetizando no código Braile (escrita para cegos) em uma
instituição especializada aqui de Caxias do Sul, no caso a Associação de Pais e
Amigos dos Deficientes Visuais (Apadev). Por isso, em minha infância a
princípio eu só tinha contato com um pequeno número de colegas, todos com
deficiência visual em maior ou menor grau, e devido ao processo de
alfabetização só passei para uma escola regular com 8 anos de idade, um ano
depois do que seria o habitual, na época iniciando então a primeira série do
ensino fundamental e começando a estudar com um número bem maior de colegas, sendo
que todos eram então videntes (enxergavam normalmente). Sendo assim, é natural
que eu tenha ficado até bem nervoso a princípio, pois ingressar em uma escola
regular, com tantos colegas diferentes daqueles com os quais eu já estava
habituado a conviver era um grande desafio para mim. Por sorte, porém, ao menos
até onde lembro, fui muito bem recebido e, com a boa vontade da maior parte dos
professores e dos colegas, dos quais alguns, inclusive, fiquei muito amigo, fui
me habituando aos poucos. Meus primeiros quatro anos de colégio nessa minha
primeira escola regular, das três nas quais estudei até chegar à faculdade,
aliás, estão entre os melhores anos escolares que tive em minha vida.
2. Para você qual é a importância das
tecnologias assistivas? Gostaríamos de saber se os cegos torcem também pelos
avanços na área da informática e se veem inseridos.
As
tecnologias assistivas, creio, sem dúvida representam um passo enorme para o
aprimoramento do processo de inclusão. Eu mesmo, como deficiente visual, posso afirmar,
por exemplo, que certos programas de voz facilitaram a minha prática estudantil
com os professores mais ou menos no começo do Ensino Médio, possibilitando o
meu acesso ao mesmo código de linguagem utilizado pelo vidente tanto na escrita
quanto na leitura.
Com
certeza, creio que se alguém torce por avanços na área da informática, são os
cegos. O problema é que, mesmo com tanta tecnologia sendo disponibilizada,
mesmo nesse meio a questão da acessibilidade ainda é um processo de
conscientização que está em desenvolvimento. Afinal, sempre que um novo avanço
apresentado possa vir a beneficiar, e muito, mesmo a outras deficiências além
da visual, primeiro há de se verificar se tal avanço já foi devidamente
adaptado, por exemplo, justamente às tecnologias assistivas. É a questão, por
exemplo, do lançamento de um novo Windows: enquanto todos os videntes que têm
contato com a informática podem, ao menos teoricamente, manuseá-lo logo que
este é disponibilizado, nós, deficientes, temos de esperar que um leitor de
tela, por exemplo, seja adaptado ao novo produto por voluntários ou por uma
empresa especializada. O que falta, portanto, ainda é uma maior conscientização
por parte dos próprios criadores de novas tecnologias.
3. Como o professor (a) pode estar cooperando na inclusão do aluno cego
na disciplina de informática?
Principalmente,
eu diria que o essencial é boa vontade por parte do professor (a). No caso do
deficiente visual, em especial, como o que separa o modo de operar o computador
do cego e do vidente é apenas o programa de voz, o principal realmente é que o
professor de um curso regular, para videntes, se disponha a se inteirar de
alguns atalhos e comandos próprios de tais leitores e sistemas adaptados,
sempre compreendendo que, ao menos a princípio, o cego geralmente faz tudo via
teclado, evitando o mouse por ser ainda uma acessibilidade em construção.
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