quinta-feira, 2 de maio de 2013

Entrevista com Lucas Borba


              


1-    Você lembra do seu primeiro dia de aula? Quais eram as expectativas? Como foi recepcionado pela comunidade escolar?

Inicialmente, comecei me alfabetizando no código Braile (escrita para cegos) em uma instituição especializada aqui de Caxias do Sul, no caso a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Visuais (Apadev). Por isso, em minha infância a princípio eu só tinha contato com um pequeno número de colegas, todos com deficiência visual em maior ou menor grau, e devido ao processo de alfabetização só passei para uma escola regular com 8 anos de idade, um ano depois do que seria o habitual, na época iniciando então a primeira série do ensino fundamental e começando a estudar com um número bem maior de colegas, sendo que todos eram então videntes (enxergavam normalmente). Sendo assim, é natural que eu tenha ficado até bem nervoso a princípio, pois ingressar em uma escola regular, com tantos colegas diferentes daqueles com os quais eu já estava habituado a conviver era um grande desafio para mim. Por sorte, porém, ao menos até onde lembro, fui muito bem recebido e, com a boa vontade da maior parte dos professores e dos colegas, dos quais alguns, inclusive, fiquei muito amigo, fui me habituando aos poucos. Meus primeiros quatro anos de colégio nessa minha primeira escola regular, das três nas quais estudei até chegar à faculdade, aliás, estão entre os melhores anos escolares que tive em minha vida.
 
2. Para você qual é a importância das tecnologias assistivas? Gostaríamos de saber se os cegos torcem também pelos avanços na área da informática e se veem inseridos.

As tecnologias assistivas, creio, sem dúvida representam um passo enorme para o aprimoramento do processo de inclusão. Eu mesmo, como deficiente visual, posso afirmar, por exemplo, que certos programas de voz facilitaram a minha prática estudantil com os professores mais ou menos no começo do Ensino Médio, possibilitando o meu acesso ao mesmo código de linguagem utilizado pelo vidente tanto na escrita quanto na leitura.

Com certeza, creio que se alguém torce por avanços na área da informática, são os cegos. O problema é que, mesmo com tanta tecnologia sendo disponibilizada, mesmo nesse meio a questão da acessibilidade ainda é um processo de conscientização que está em desenvolvimento. Afinal, sempre que um novo avanço apresentado possa vir a beneficiar, e muito, mesmo a outras deficiências além da visual, primeiro há de se verificar se tal avanço já foi devidamente adaptado, por exemplo, justamente às tecnologias assistivas. É a questão, por exemplo, do lançamento de um novo Windows: enquanto todos os videntes que têm contato com a informática podem, ao menos teoricamente, manuseá-lo logo que este é disponibilizado, nós, deficientes, temos de esperar que um leitor de tela, por exemplo, seja adaptado ao novo produto por voluntários ou por uma empresa especializada. O que falta, portanto, ainda é uma maior conscientização por parte dos próprios criadores de novas tecnologias.

3. Como o professor (a) pode estar cooperando na inclusão do aluno cego na disciplina de informática?

Principalmente, eu diria que o essencial é boa vontade por parte do professor (a). No caso do deficiente visual, em especial, como o que separa o modo de operar o computador do cego e do vidente é apenas o programa de voz, o principal realmente é que o professor de um curso regular, para videntes, se disponha a se inteirar de alguns atalhos e comandos próprios de tais leitores e sistemas adaptados, sempre compreendendo que, ao menos a princípio, o cego geralmente faz tudo via teclado, evitando o mouse por ser ainda uma acessibilidade em construção.

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